As condições da prisão onde está nosso missionário José Dilson

Posted: Março 23, 2013 in Blogs Recomendados

Rev. Jucelino Souza
via Igreja Presbiteriana Betânia

senegal - prisão

Mamadou Ndiaye, ex-detento, acabou de purgar uma pena de três meses fechado na prisão de Thiès. Ele chama a atenção sobre as condições desumanas da Casa de Detenção e Correção(Mac) de Thiès onde se encontra detido o nosso missionário José Dilson. Através de tremendo testemunho sobre a miséria imposta aos detentos da capital do Rail.

“Eu me chamo Mamadou Ndiaye. Fui condenado a três meses de prisão e colocado sob mandato de prisão na Casa de Detenção e de Correção(Mac) de Thiès. Fui levado à justiça por ser contra uma decisão meu irmão mais velho que resolveu vender o domicílio familiar a um primo estabelecido na Europa. Membros de minha família se desentenderam comigo e foi o pretexto para me prenderem. Cumpri pena de 3 meses. Hoje, ainda estou traumatizado pelas terríveis condições vividas naquela masmorra. A prisão de Thiès é um verdadeiro inferno. Frequentemente, prisioneiros são encontrados mortos. Durante o tempo em que lá estive, presenciei a morte de quatro ou mais prisioneiros. Um deles(Akim Goloko) foi até enterrado no jardim situado fora da prisão.

A situação sanitária é deveras sofrível. Neste momento há uma doença grave chamada “Biri Biri” que tem causado estragos entre os detentos. O doente fica com os pés inchados e, após grande e demorado sofrimento, morre. Outra patologia que assola os presos é a tuberculose. Tenho a impressão de que o Ministério da Saúde considera os prisioneiros como seres sub-humanos que não têm o direito aos cuidados mais elementares. A enfermaria da prisão de Thiès existe apenas de nome: lá não existe absolutamente nenhum medicamento. Quando um detento quebra um braço, dão-lhe apenas paracetamol. Os presos não têm nenhuma assistência médica. Os doentes em estado mais grave são isolados em um quarto à espera da morte.atravessar o corredor.

Projetada para alojar seiscentos , a Mac de Thiès conta, hoje, commais mil presos. Os prisioneiros estão espremidos nas celas como sardinhas em lata. Não há o mínimo espaço para que todos se deitem e durmam no chão. Em cada cela há um excesso de 200 presos. Não há ventilação e a umidade é terrível. À noite muitos não dormem, ficam sentados até o amanhecer. Para ter um lugar ondedormir, é preciso pagar 20.000 ou 25.000 FCF aos chefes de cela que , conluiados com os guardas penitenciários, “vendem” lugares nas celas.

A alimentação é imprópria ao consumo.
As refeições mais parecem restos podres. Pela manhã, não há café nem pão algum. Ao meio-dia, uma pequena tigela de uma pasta de arroz com peixe é servido aos presos. É tão salgado que os detentos comem com muito sacrifício. Para o jantar, servem mingau de arroz sem açúcar e em quantidade cabível em uma xícara de café.Muitos prisioneiros deixam de jantar não o tomam porque não há quantidade suficiente para todos. Os presos são muito mal alimentados .É responsabilidade do Estado do Senegal servir boa alimentação nas prisões. O “rango” é simplesmente impróprio ao consumo.

Naquela prisão, a superlotação podia ser evitada se os magistrados apurassem e determinassem, mediante ato judicial, o menor número possível de detentos em cada cela. Desde que se está aos cuidados da promotoria, há grandes possibilidades de receber um bilhete de entrada para a prisão. Fiquei profundamente tocado com o caso de um preso que estava lá há mais de quatro anos sem comprovação de delito. Ele clamava sem cessar afirmando sua inocência . Na época de seu processo, ele foi liberado porque as acusações que lhe foram feitas não tinham fundamento. Acredito que sua vida foi destruída. Todo aquele tempo passado na prisão foi de absoluta inutilidade. Durante aqueles quatro anos, ele teria podido realizar seus projetos de vida. Há centenas de inocentes nas prisões. Conheci detentos que lá estão há mais de cinco anos, sem serem julgados…

Entretanto, o pátio da prisão de Thiès está bem conservado, todo enfeitado, e há flores nos contornos do bloco administrativo. Não é senão a ponta do iceberg. Ao fundo, os prisioneiros vivem nas celas um verdadeiro calvário. Ainda no meio da tarde as celas são tão escuras que se tem a impressão de ser noite.

Os toaletes são sujos e nojentos
Há quase 200 a 300 detentos que se revezam para usarem um toalete. Os toaletes são sujos e nojentos e não têm conservação. Um mal cheiro pestilento é sentido a distância. É com muito sacrifício que se consegue respirar. Quando um preso se lava, os demais vêm urinar em seus pés. O mesmo acontece quando se usa latrina. Os jovens, os adultos, os mais velhos disputam os toaletes. Quando alguém tem necessidades a fazer, ninguém sabe o que é ter escrúpulo. A prisão de Thiès é um outro mundo no qual maus hábitos são adquiridos.

Durante minha estada na prisão, constatei que os homens da igreja e os cristãos fazem muitas boas obras pelo bem dos detentos. Cuidam deles e lhes trazem medicamentos. Infelizmente, ao chefes religiosos muçulmanos e os mulçumanos em geral têm horror às prisões e lá não são vistos. Os prisioneiros muçulmanostêm necessidade deles e carecem de suas orações.

Os deputados também são vivamente interpelados. A missão deles não é somentepassar o dia a falar das sondagens sobre o enriquecimento ilícito. Eles são deputados do povo. A eles cabe defender os prisioneiros. Em Thiès, os detentos têm grande estima por Helena Tine, de “Bès du niakk”. É uma mulher autêntica que sempre arregaçou as mangas em defesa das vítimas. Quando eu tive minha prisão relaxada, pediram-me e eu lhes prometi dizer à Helena Tine, deputada na Assembléia Nacional, que os prisioneiros de Thiès contam com ela para abrir um debate sobre as condições miseráveis de detenção nas prisões do Senegal.”

Texto traduzido do Jornal “L’Observateur” nº 2781, quinta-feira, 27 de dezembro de 2012.

FONTE: Igreja Presbiteriana Betânia

Rev. Jucelino Souza
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