“LOUVOR” EXISTENCIALISTA: O Estrago do Velho Existencialismo na Nova Música

Posted: Junho 19, 2011 in Blogs Recomendados
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por Rev. Charles Melo de Oliveira

Dentro do meu EU, só há espaço para o meu EU!!

Dentro do meu EU, só há espaço para o meu EU!!

O Século XX conheceu filósofos comprometidos com uma cosmovisão chamada existencialismo. Só para que o leitor tenha uma idéia resumida, Jean-Paul Sartre, da França, foi um desses filósofos existencialistas. Ele dizia que a existência humana era justificada por um ato simples da vontade. Basta querer e fazer alguma coisa, e a vida terá sentido.

O problema é que essa visão não se importava com a ética em si. Por exemplo, se uma senhora idosa precisasse de ajuda para atravessar a rua e um jovem a ajudasse apoiando seu braço, seria uma atitude significativa. No entanto, se o jovem desse um cascudo em sua cabeça e mandasse ela se virar, tanto faz, também é um ato significativo, porque em ambos os casos, constatamos simples atos da vontade.

Esse tipo de existencialismo, chamado de secularista, anulou a idéia de bem ou mal, certo ou errado. A ética passou a legitimar tudo, porque se tratava de um ato da von-tade. A influência desse tipo de pensamento se espalhou e acabou penetrando as igrejas. Recentemente, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA) aprovou oficialmente a ordenação de pastores(as) homossexuais e transsexuais. Os argumentos são fundamentados na mesma lógica existencialista, onde o indivíduo se torna o fator determinante do que é certo ou errado.

Infelizmente, o existencialismo tem mantido suas afiadas garras encravadas nas igrejas quando as pessoas não se importam com algum padrão doutrinário. O que im-porta é a sua intenção diante de Deus. O que vai no coração é o que interessa. Não a forma como você se conduz. Sendo assim, práticas bisonhas e esdrúxulas são justificadas pela boa intenção do adorador. Quando se apela ao princípio regulador do culto, a resposta é sempre a mesma: “a Confissão de Fé de Westminster foi relevante para a sua época e não responde às nossas questões hoje”. O problema é que a CFW interpretou as Escrituras usando o método gramático-histórico de interpretação, o que elimina fatores tendenciosos na conclusão do significado do texto. Sendo assim, ela tem valor hoje sim.

Agora perceba outra maneira do existencialismo mostrar a que veio: veja como boa parte das músicas que se cantam hoje são dominadas pelo “eu” e pelo ato da vontade do indivíduo:

Eu vejo a glória do Senhor hoje aqui
A sua mão o seu poder sobre mim
Os céus abertos hoje eu vou contemplar
O amor descer neste lugar

Eu quero ver agora o teu poder
A tua glória inundando o meu ser
Vou levantar as mãos e vou receber
Vou louvando o teu nome
Porque eu sinto o Senhor me tocar

Tem certas idéias e ensinamentos que passam despercebidos aos nossos olhos nem sempre críticos. Além do mais, a beleza inegável dos acordes, da linha melódica e dos arranjos tendem a nos envolver emocionalmente ao ponto de nos tornar enfeitiçados e nos fazer tolerar o intolerável. Por essa razão, vou comentar algumas frases da música, mas peço que o nobre leitor leia com a mente aberta para perceber certas coisas que, de repente, não percebeu enquanto cantava nos cultos.

Primeiro, repare a exagerada ênfase no “eu”: Eu vejo a glória do Senhor hoje aqui. São nove referências diretas e indiretas ao “eu” numa música de poucas palavras. Note também o caráter subjetivista da letra, ao afirmar que a glória do Senhor que ele vê é “a sua mão o seu poder” sobre si. A mão e o poder de Deus pode ser qualquer coisa: desde sentimentos e sensações puramente emocionais à persuasão sincera pela Palavra. No entanto, observe como não há qualquer precisão na descrição do fenômeno. A próxima frase carece de melhor formulação, pois a construção à luz da Palavra não faz sentido: “Os céus abertos hoje eu vou contemplar”. Essa frase conta com a liberdade poética para fazer esse tipo de afirmação; no entanto, nossa liberdade poética não nos permite fazer afirmações que absolutamente não possui respaldo bíblico. A visão do céu aberto foi apocalíptica. Somente João e Estêvão viram os céus abertos além dos que presenciaram o batismo de Jesus. Então dizer que vai ver o céu aberto no sentido de provar da ação de Deus na própria vida é importar um sentido do texto e aplicá-lo a outra situação incabível, além de forçar a barra.

Agora a prepotência do adorador se torna a marca crucial: “Eu quero ver agora o teu poder”. Além da ênfase no “eu”, conforme já descrevi antes, de onde vem essa prepotência de querer ver o poder de Deus? Isso nos lembra o reprovável desejo dos fariseus de verem a demonstração do poder de Deus. Eles eram incrédulos. Também dizer que quer ver agora o poder de Deus soa estranho depois de Jesus dizer a Tomé, que bem-aventurados são os que não viram e creram. O poder de Deus não tem que ser visto; tem que ser crido. Os fariseus pediram para Jesus fazer um sinal e ele disse que o único sinal que ele lhes daria seria o de Jonas. Isso fazia referência à sua ressurreição, ao terceiro dia, como demonstração gloriosa do poder de Deus e de sua evidente messianidade. Hoje somos conclamados a crer no Senhor Deus cujo poder ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Prefiro a letra do Stênio Marcius, que diz: “eu quero ser, não quero ter; eu quero crer, não quero ver” (“E Se…” – do CD “Canções à Meia Noite”).

Mas a prepotência do adorador não para por aí. Mais à frente, outra frase revela a ênfase no “eu existencial”: “Vou levantar as mãos e vou receber”. Note de novo a prepotência de quem acha que Deus está obrigado a dar alguma coisa. Na melhor das hipóteses, o “eu” do discurso poderia dizer “vou levantar as mão e oferecer”. Até porque o ato de levantar as mãos na Bíblia sempre denota a oferta e não a recepção de alguma coisa. Mas o “eu” existencial é assim mesmo. Ele se importa em justificar sua existência, se importa em ser feliz recebendo coisas o tempo todo. Não é à toa que o “evangelho da prosperidade” reúne tantos fiéis em torno de líderes que prometem ouro, prata, TVs gigantes, carros sofisticados e casas “apaine-ladas”. Basta determinar, levantar as mãos para receber, que o criado-mor vai dar o que a gente quiser.

Para fechar essa análise, considere o último trecho: “Vou louvando o teu nome porque eu sinto o Senhor me tocar”. Se alguém se perguntou se poderia piorar, creio que este trecho responde bem. Esse trecho é muito infeliz porque ele coloca o ato de louvor a Deus de forma condicional. O “porque” indica uma explicação. A razão porque eu vou louvando é porque “eu sinto o Senhor me tocar”. Note o subjetivismo exacerbado mais uma vez. A ênfase no sentir é puramente subjetiva. E se o “eu” existencial do discurso não sentir o toque de Deus, seja lá o que esse toque quiser significar? Nesse caso ele não vai louvando porque não sentiu nada de extraordinário? O louvor ao Senhor é tarefa incondicional da igreja. Os Salmo 150 diz que devemos louvar a Deus pelos seus poderosos feitos e consoante a sua muita grandeza. O Salmo 34 afirma: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará sempre nos meus lábios”. Independente da situação, de maneira incondicional, devemos louvar ao Senhor. Mesmo quando estamos atravessando um deserto espiritual, passando por momentos de provações e até crises em nossa pequena fé, ainda assim devemos louvar, mesmo quando não sentimos nada de especial, mesmo na igreja.

Finalmente, deixe-me sugerir uma postura ideal para que nossa adoração fuja dos efeitos do existencialismo:
Primeiro, tenhamos na palavra o padrão do que é certo ou errado. Ela é o critério se algo será aceitável ou não no culto que prestamos a Deus, e não a minha boa intenção. Lembremos que a verdade é objetiva e está revelada na Palavra.
Segundo, evitemos essa ênfase exacerbada no “eu”. Nossa adoração junto com a congregação, na igreja, não é individual; é coletiva, comunitária. Embora alguns salmos tragam o “eu” como sujeito do discurso, muitos outros também conclamam o povo de Deus ao louvor. Vemos no NT o retrato da igreja como organismo, corpo de vários membros, mas que possuem um propósito em comum, sendo buscado por todos conjuntamente: a glória de Deus.
Terceiro, concentremos mais a nossa atenção em Deus e em sua vontade. Não pensemos primeiramente em nossa satisfação; pensemos primeiramente em agradar a Deus. Nosso prazer decorrerá do fato de Deus se agradar de nosso culto primeiro. Nossa adoração será agradável a Deus a partir do momento que Cristo estiver no centro e não o “eu” existencial. Que Deus nos abençoe e nos ajude a nos humilhar em sua presença.

O Título Original do Post: O Estrago do Velho Existencialismo na Nova Música

FONTE: ARTE e JÚBILO
Acesse: http://arteejubilo.blogspot.com/2011/06/o-estrago-do-velho-existencialismo-na.html

Rev. Jucelino Souza
Twitter: http://twitter.com/jucelinosouza
E-mail: jucelinosouza@facebook.com

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