A SOLIDÃO DE DEUS: A. W. Pink

Posted: Fevereiro 26, 2011 in Blogs Recomendados
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por Rev. Jucelino Souza

A SOLIDÃO DE DEUS
Um dos capítulos do livro: “The Attributes of God” (Os Atributos de Deus), de A. W. Pink*

A Ciência Mais Elevada

Nos dias atuais a Igreja tem perdido o senso de majestade e sublimidade do glorioso Deus das Escrituras – e isso de um modo geral. Essa perda tem acontecido quase imperceptivelmente. Verdade é que o cristianismo moderno não está produzindo pessoas tementes a Deus, pessoas que entendam a experiência do profeta Isaías quando disse: “Ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros…” [Isaías 6.5], ou do rei Salomão quando exclamou: “Ó Senhor Deus de Israel, não há Deus como tu, em cima nos céus nem embaixo na terra” [1Reis 8.23].

Este texto é uma tentativa de trazer de volta o povo de Deus para aquela apreciação da gloriosa pessoa de Deus que levou o renomado Spurgeon a dizer: “A ciência mais elevada, ou a inquirição mais sublime, ou a sabedoria mais importante que possa ser contemplada pelo verdadeiro cristão é o nome, a natureza, a pessoa, a obra e a existência do grande Deus a quem chamamos Pai”.

A Maior de Todas as Necessidades

Une-te, pois a Ele, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem” [Jó 22.21].Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas. Mas o que se gloriar glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor…” [Jeremias 9. 23, 24]. Um conhecimento salvador e espiritual de Deus é a maior de todas as necessidades de cada criatura humana.

O fundamento de todo o conhecimento verdadeiro de Deus só pode ser a clara compreensão mental de Suas perfeições, segundo revelam as Escrituras Sagradas. Não nos é possível servir nem adorar a um Deus desconhecido, nem depositar n’Ele a nossa confiança. Neste texto breve fez-se um esforço para apresentar algumas das principais perfeições do caráter divino. Para que o leitor se beneficie realmente com a leitura das linhas que se seguem, ele precisa suplicar a Deus com seriedade e determinação que as abençoe para seu proveito, que aplique Sua verdade à consciência e ao coração, a fim de que a sua vida seja transformada.

Necessitamos de algo mais que um conhecimento teórico de Deus. Só conhecemos verdadeiramente a Deus em nossa alma, quando nos rendemos a Ele, quando nos submetemos a Sua autoridade e quando os Seus preceitos e mandamentos regulam todos os pormenores de nossa vida. “Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor…” [Oséias 6.3]. “Se alguém quiser fazer a vontade d’Ele… conhecerá” [João 7.17]. “… o povo que conhece ao seu Deus se esforçará e fará proezas” [Daniel 11.32].

A Solidão de Deus

O título deste texto talvez não seja suficientemente claro para indicar o seu tema. Isto se deve, em parte, ao fato de que hoje em dia bem poucas pessoas estão acostumadas a meditar nas perfeições pessoais de Deus. Dos que lêem ocasionalmente a Bíblia, bem poucos sabem da grandeza do caráter divino, que inspira temor e concita à adoração. Que Deus é grande em sabedoria, maravilhoso em poder, não obstante, cheio de misericórdia, muitos acham que pertencem ao conhecimento comum; contudo, chegar-se a um conhecimento adequado do seu ser, sua natureza, seus atributos, como estão revelados nas Escrituras Sagradas, é coisa que pouquíssimas pessoas têm alcançado nestes tempos degenerados. Deus é único na excelência do seu ser. “Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravilhas?” [Êxodo 15. 11].

No princípio… Deus…” [Gênesis 1.1]. Houve tempo, se é que se lhe pode chamar ‘tempo’, em que Deus na unidade de Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). “No princípio… Deus…”. Não existia o céu, onde a glória se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção. Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela palavra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, se não Deus; e isso, não durante um dia, um ano, ou uma época, mas ‘desde sempre’. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só: completo, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando. Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessários de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essencialmente. Ele não muda [Malaquias 3.6], pelo que, essencialmente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída.

Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver faze-lo foi um ato puramente soberano de Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, senão o Seu próprio beneplácito, já que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” [Efésios 1.1]. O fato de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória. Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Então, o nosso apelo será a Lei e o Testemunho: “… levantai-vos, bendizei ao Senhor vosso Deus de eternidade em eternidade; ora bendigam o nome da tua glória, que está levantado sobre toda a benção e louvor” [Neemias 9.5]. Deus não ganha nada, nem sequer com a nossa adoração. Ele não precisava dessa glória externa de Sua graça, procedente de seus redimidos, porquanto é suficientemente glorioso em Si mesmo sem ela. Que foi que O moveu a predestinar Seus eleitos para o louvor da glória de Sua graça? Foi, como nos diz Efésios 1.5, “… o beneplácito de sua vontade”.

Sabemos que o elevado terreno que estamos pisando é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andarmos devagar. Recorramos de novo às Escrituras. No final de Romanos capítulo 11, onde o apóstolo conclui sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e soberana graça, pergunta ele: “Por que quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” [vv. 34-35]. A importância disto é que é impossível submeter o Todo-Poderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. “Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem” [Jó 35.7,8], mas certamente não pode afetar a Deus, que é bem-aventurado em si mesmo. “… quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” [Lucas 17.10] – nossa obediência não dá nenhum proveito a Deus.

De mais a mais, vamos além: nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavras: “… não tenho outro bem além de ti” [Salmo 16.2]. (Na versão utilizada pelo autor, literalmente: “… a minha bondade não chega a Ti”). Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançaram os Seus santos na terra [Salmo 16.3], mas Deus estava acima e, além disso tudo, pois unicamente Deus é ‘o Bendito’ [Marcos 14.61, no grego].

É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu caráter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido ‘glorificado’ pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos faze-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Que fizesse ou não, foi determinado unicamente por Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura. E, que são para Ele todas as Suas criaturas, mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta: “Eis que as nações são consideradas por ele como a gota dum balde, e como pó miúdo das balanças: eis que lança por aí as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que o comparareis?” [Isaías 40.15-18]. Esse é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua sendo o “Deus desconhecido” [Atos 17.23] para multidões desatentas. “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os juízes da terra” [Isaías 40.22,23]. Quão imensamente diverso é o Deus das Escrituras do ‘deus’ do púlpito comum!

O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma diferença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos: “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver: ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” [1Timóteo 6.15,16]. O Ser que aí é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário em Sua majestade, único em Sua excelência, incomparável em Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém.

Um Deus tal não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração pelo Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens ficam ‘inescusáveis’ [Romanos 1.10]; contudo, ainda temos que dizer com Jó: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem, pois entenderia o trovão do seu poder?” [Jó 26.14]. Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apresentado por ‘apologetas’ bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência.

Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou um relógio e que, depois de detido exame, inferiu a existência de um relojoeiro. Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, de seus afetos pessoais, de suas maneiras; de sua disposição, conhecimentos e caráter moral – de tudo aquilo que se junta para compor uma personalidade. Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real – o homem que fabricou o relógio – de modo que pudesse dizer: “Eu o conheço”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tanto mais ao alcance da razão humana? Realmente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido por aqueles a quem Ele próprio Se dá a conhecer.

Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. “Deus é espírito…” [João 4.24] e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal. Está morto para tudo que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus [João 3.3], e muito menos entende-las [1Coríntios 2.14]. É mister que o Espírito Santo brilhe em nossos corações (não no intelecto) para dar-nos o “… conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” [2Coríntios 4.6]. E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de “crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus” [2Pedro 3.18].

A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos… andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” [Colossenses 1.10].

Notas:
* Arthur W. Pink foi consagrado como pastor de uma igreja em Silverton, Colorado, EUA. em 1901. Posteriormente ministrou a Palavra de Deus em três continentes, mas segundo as opiniões populares da época, pouco realizou. Quando faleceu em 1952, no norte da Escócia, ele era quase desconhecido entre os evangélicos. No entanto, hoje, cinqüenta anos depois, ele se tornou uma influência mundial, contribuindo muito para uma fé e vida cristã marcadas por bastante seriedade.

** O texto aqui transcrito pelo Rev. Jucelino Souza foi publicado pela primeira vez na revista mensal “Studes in the Scriptures” (Estudos nas Escrituras), publicada pelo autor e totalmente dedicada à exposição da Palavra de Deus e a provisão de alimento espiritual para almas famintas. Estes artigos foram reeditados em sua presente forma graças a generosidade de um amigo cristão de A. W. Pink que financiou o custo total de sua publicação.

Leituras Adicionais Recomendadas

(em português):

BAVINCK, Hermann. Teologia Sistemática: fundamentos teológicos da fé cristã. Tradução Vagner Barbosa. São Paulo: Socep, 2001. [Título em inglês: Our Reasonable Faith, 1977]. Ler o Capítulo 2 – “O Conhecimento de Deus”, pp. 25-32.

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 2ª edição. Tradução Odayr Olivetti. Campinas: LPC, 1992. [Título em inglês: Systematic Theology, 1949]. Ler o Capítulo VI – “A Existência Autônoma de Deus”, p. 61.

CAMPOS, Héber Carlos de. O Ser de Deus e Seus Atributos. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. Ler o Capítulo 8 – “A Independência de Deus”, pp. 174-181.

DAGG, John Leadley. Manual de Teologia. Tradução Missão Evangélica Literária. São Paulo: FIEL, 1989. [Título em inglês: Manual of Theology, 188?]. Ler o Capítulo III, seção 4: “Eternidade e Imutabilidade”, pp. 46-50.

HODGE, A.A. Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Os Puritanos, 1999. [Título em inglês: Confession of Faith, 1869]. Ler Capítulo II, Seções I a III – “De Deus e da Santíssima Trindade”, pp. 75-94.

LLOYD-JONES, David Martyn. Deus o Pai, Deus o Filho. (Série: Grandes Doutrinas Bíblicas vol. 1). Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: PES, 1997. [Título em inglês: God the Father, God the Son, 1996]. Ler Capítulo 5 – “A Existência e o Ser de Deus”, pp. 67-79.

Rev. Jucelino Souza
Twitter: @jucelinosouza
e_mail: jucelinofs@yahoo.com.br

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