Eles – infelizmente – “voltaram” a querer ser D_us

Posted: Janeiro 12, 2011 in Blogs Recomendados
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por César Moisés Carvalho

Astrofísico Stephen Hawking

Novas afirmações de Stephen Hawking sobre Deus fazem com que Marcelo Gleiser afirme que as novas ideias do conhecido astrofísico sejam, nada mais, nada menos, que um desejo de o homem querer ser Deus

Há poucos dias houve um pronunciamento contundente do matemático cristão John Lennox refutando as novas afirmações de Stephen Hawking acerca de Deus. Li o artigo-resposta e não quis pronunciar-me justamente porque ainda não tive acesso ao novo livro do astrofísico. Assim que o material for lançado no Brasil, terei enorme prazer e interesse em lê-lo e fazer minha exposição acerca da obra. Mas o que motivou-me a escrever este texto, foi a opinião do físico teórico brasileiro, Marcelo Gleiser, em sua coluna na Folha de São Paulo, no artigo “Hawking e Deus: relação íntima”.

Para compreender essa “relação íntima” de Hawking com Deus, é preciso inteirar-se do pensamento do astrofísico a respeito do assunto. Em seu primeiro livro para leigos, Uma breve história do tempo, lançado em 1988 (tanto nos EUA como no Brasil), essa “relação” fica nitidamente exposta. Na introdução do livro feita pelo falecido astrônomo e filósofo da ciência, Carl Sagan, fica claro que o assunto “Deus” será tema recorrente na obra. Após explicar um pouco do conteúdo do livro, Sagan afirma no último parágrafo da introdução: “É também um livro sobre Deus… ou, talvez, sobre sua ausência. A palavra Deus invade suas páginas. Hawking embrenhou-se numa busca profunda para responder à famosa colocação de Einstein sobre a possibilidade de escolha que Deus possa ter tido para criar o universo. Hawking, como ele mesmo afirma explicitamente, tenta compreender a mente de Deus. Isto torna a conclusão deste esforço completamente surpreendente: o universo sem limite no espaço, sem começo ou fim e sem nada que um Criador pudesse fazer” (p.15).

A “famosa colocação de Einstein”, mencionada por Carl Sagan, é citada pelo próprio Hawking como fio condutor da conclusão de sua obra: “‘Que nível de escolha Deus teria tido ao construir o universo?’” (p.237). Assim, essa busca pela compreensão da “mente de Deus” nada mais é que um eufemismo para a grande ambição ou objetivo do astrofísico que é encontrar uma teoria unificada (“A procura desta teoria”, nas palavras do próprio Hawking, “é conhecida como ‘unificação da física’”, p.213), onde, à época, pudesse unir “a teoria geral da relatividade e a mecânica quântica, que são as duas grandes contribuições intelectuais da primeira metade deste século [leia-se século 20]” (p.31). A união das duas originaria o que Hawking chamou de “teoria quântica da gravidade” (p.32), que, por sua vez, é o desejo de se alcançar a “meta final” de descrever o universo, de forma a encontrar as respostas para as maiores inquietações da humanidade. Mesmo assim, o exercício de se buscar as respostas a essas indagações, parece ser apenas filosófico e dialético; mas não “objetivo” no sentido de encontrar uma resposta final. Ao aventar a possibilidade de se “encontrar” a teoria unificada, Hawking diz: “Mesmo se só existisse uma possível teoria unificada, seria ainda assim um conjunto de regras e equações. O que é que inflama as equações e gera um universo para que elas o descrevam? A abordagem usual da ciência da construção de um modelo matemático não pode responder a questões como por que deveria haver um universo para o modelo descrever” (p.237).

Todas estas questões não teriam uma resposta por causa da teoria, mas apesar dela. “Entretanto”, como afirma o astrofísico, “se descobrimos de fato uma teoria completa, ela deverá, ao longo do tempo, ser compreendida, grosso modo, por todos e não apenas por alguns poucos cientistas. Então devemos todos, filósofos, cientistas, e mesmo leigos, ser capazes de fazer das discussões sobre a questão de por que nós e o universo existimos. Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus” (p.238).

Assim, quando li no final da década dos 90 que Stephen Hawking cria em Deus, à época fiquei contente, mas anos depois, pesquisando sobre o assunto, percebi que antes de dizer que alguém crê em Deus, é preciso primeiramente saber a noção de Deus que a pessoa possui! Em Uma breve história do tempo, Hawking parecia ser, no mínimo, um deísta (cf. pp.172-73). Na obra Você está aqui, lançada em junho último, o editor, matemático e mestre em filosofia e história da ciência, Christopher Potter, falando sobre o fato de que grande parte dos cientistas acredita em Deus, ao mencionar o astrofísico de Cambridge, Potter afirma que: “Até mesmo materialistas linha-dura como o físico teórico inglês Stephen Hawking (1942) e o físico americano Steven Weinberg (1933) borrifam seus escritos com argumentos sobre a possível natureza de um Deus em que não acreditam. Hawking nos diz que podemos na verdade estar perto de conhecer a mente de Deus, enquanto Weinberg, mais imparcial, afirma que ‘a ciência não torna impossível acreditar em Deus. Simplesmente torna possível não acreditar em Deus’” (p.17).

Talvez haja uma reação de estranhamento por parte dos leitores por verificarem que Hawking utiliza a expressão “descoberta” ao referir-se ao intento de “encontrar uma teoria unificada”. Na realidade, o seu pensamento parece caminhar no sentido de que exista tal explicação, não sendo preciso construí-la, e sim, descobri-la. Essa ideia na realidade é ainda uma prática ligeiramente modificada da “febre” que tomou conta da comunidade acadêmica a partir de 1917, depois que Einstein propôs sua nova teoria da gravidade. Desse período para cá surge a mania da invenção dos “Universos matemáticos”. Nas palavras de Marcelo Gleiser em Poeira das estrelas, no período da “década de 1920, muita gente tentou inventar seu próprio universo: bastava mudar a matéria, que a geometria cósmica respondia de modo diferente” (p.126). Tal explicação é relevante, pois na opinião de Gleiser, mesmo nas mais bem elaboradas cosmologias (a exemplo dos modelos matemáticos do russo Aleksandr Friedmann), podem-se “ouvir ecos dos mitos da criação […], em particular o da dança do deus Xiva, que cria e destrói o cosmo em ciclos” (p.128). Entretanto, tais visões acabam se chocando com a proposta científica que é justamente fornecer informações precisas, objetivas e, ideologicamente falando, obtidas a posteriori. Como afirma Marcelo Gleiser: “Modelos são muito importantes em ciência, pois determinam os comportamentos de um sistema, seja ele um átomo ou o universo como um todo. Porém, por mais interessante que sejam, não correspondem necessariamente à realidade. Como o objetivo da física é descrever o mundo natural, é preciso discriminar entre os vários modelos possíveis. Para isso são necessários experimentos ou, no caso da astronomia, observações” (p.128).

E é justamente nesse aspecto que Hawking está enfrentando problemas para levar adiante seu objetivo de encontrar uma teoria unificada. Sinais dessa dificuldade já se mostravam treze anos após publicar Uma breve história do tempo, quando o astrofísico lançou a obra O Universo numa casca de noz. Nesse segundo trabalho para leigos, Hawking chega a dizer que algumas “das teorias descritas neste livro [O Universo numa casca de noz] não têm mais provas experimentais do que a astrologia, mas acreditamos nelas por serem compatíveis com teorias que sobreviveram ao teste” (p.103). Ao falar em Uma breve história do tempo acerca da busca da teoria unificada, Hawking menciona a “teoria da corda” (posteriormente chamada de “teoria das cordas” e também “teoria das supercordas”) que, segundo ele, “foi originalmente inventada no final da década de 1960” (p.220). A proposta desta teoria é unificar “a mecânica quântica e a relatividade geral (O Universo numa casca de noz, p.208), ou seja, seria uma das muitas tentativas de encontrar a sonhada “teoria unificada”. Contudo, como o próprio Hawking reconhece em sua segunda obra para leigos: “A partir de 1985, aos poucos foi ficando claro que a teoria das cordas não constituía o quadro completo. Para começar, percebeu-se que as cordas não passam de um membro de uma ampla classe de objetos que podem ser estendidos em mais de uma dimensão. Paul Townsend, membro, como eu, do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica (DAMTP) de Cambridge e autor de grande parte do trabalho fundamental sobre esses objetos, denominou-os ‘p-branas’” (p.54).

Em O Universo numa casca de noz, Hawking fala de muitas outras teorias (todas com a intenção de chegar à “teoria unificada”), mas é somente em uma reedição de sua primeira obra, intitulada Uma nova história do tempo, agora escrita em coautoria com Leonard Mlodinow e lançada em 2005, que “ele” acrescenta e “corrige” algumas de suas ideias originais. Neste livro, mesmo reconhecendo os erros que já ocorreram por conta da euforia em torno da “unificação da física”, os autores afirmam que existem “motivos para acreditarmos com otimismo cauteloso que podemos estar agora perto do fim da busca pelas leis definitivas da natureza” (p.122). A chamada “teoria das cordas”, por exemplo, é uma das maiores apostas do astrofísico na hipótese de que ela possa ser o grande guarda-chuva que acomode uma quantidade suficiente de outras teorias para formar uma “teoria unificada de tudo”. Mesmo tendo chegado à conclusão de que a teoria das cordas não forma o quadro total para descrever o universo, principalmente por conta do problema das dimensões que ela “reivindica” para si (visivelmente o universo parece possuir apenas três dimensões espaciais e uma única dimensão temporal, isto é, quatro; enquanto que as teorias das cordas “parecem ser coerentes somente se o espaço-tempo tiver ou dez ou 26 dimensões”, p.132). Contudo, segundo Hawking e Mlodinow, “as dimensões extras de espaço-tempo constituem um lugar comum da ficção científica” (p.132).

Se em 2001, na obra O Universo numa casca de noz, Hawking disse que pessoalmente relutava em acreditar em “dimensões extras”, mas, ponderou que como positivista (no sentido filosófico, por favor), perguntar se dimensões extras realmente existe era inconcebível, pois o “que se pode perguntar é se modelos matemáticos com dimensões extras fornecem uma boa descrição do universo” (p.54), em Uma nova história do tempo seu otimismo ― unido ao de Mlodinow ― em torno do assunto foi renovado:
“Além da questão das dimensões, outro problema com a teoria das cordas é que existem pelo menos cinco teorias diferentes (duas teorias das cordas abertas e três diferentes das cordas fechadas) e milhões de maneiras pelas quais as dimensões extras previstas pela teoria das cordas poderiam ser enroladas. Por que deveria ser escolhida apenas uma teoria das cordas e um tipo de enrolamento? Durante algum tempo, parecia não haver resposta alguma e o progresso estancou num atoleiro. Então, a partir mais ou menos de 1994, as pessoas começaram a descobrir aquilo que é chamado de dualidades: diferentes teorias das cordas de diferentes maneiras de enrolar as dimensões extras poderiam levar aos mesmos resultados em quatro dimensões. Além disto, descobriu-se que, além das partículas, que ocupam um único ponto do espaço, e das cordas, que são linhas, existiam outros objetos chamados p-branas, que ocupavam volumes bidimensionais ou com mais dimensões no espaço. (Uma partícula pode ser considerada uma 0-brana e uma corda, uma 1-brana, mas existiam também p-branas para p = 2 a p = 9. Pode-se pensar numa 2-brana algo parecido com uma membrana bidimensional. É mais difícil imaginar branas com mais dimensões.) O que isto parece sugerir é que existe uma espécie de democracia (no sentido de ter vozes iguais) entre as teorias da supergravidade, das cordas e da p-brana: elas parecem se encaixar reciprocamente, mas não se pode dizer que qualquer uma delas seja mais fundamental que as outras. Pelo contrário, todas elas parecem ser diferentes aproximações de uma teoria mais fundamental, cada uma válida em diferentes situações” (p.135).

Em 2001, antes da popularização midiática dos Aceleradores de partículas, Hawking reconheceu que as cinco teorias das cordas (e a questão de cada uma delas possuir múltiplas dimensões), mesmo sendo indemonstrável, era algo que poderia futuramente ser comprovado, principalmente com a possibilidade de se observar as “dimensões extras” no “Grande Acelerador de Hádrons, em Genebra” (p.57). Ao mencionar o atualmente famoso LHC (Large Hadron Collider, em português, Grande Acelerador de Hádrons), percebe-se que Hawking não lhe tributa tanta esperança na evidenciação do problema das “múltiplas dimensões”. O astrofísico afirma que “o que convenceu muita gente”, incluindo ele, “de que se devem levar a sério os modelos com dimensões extras é a existência de uma rede de relações inesperadas, chamadas dualidades, entre os modelos” [das cinco teorias das cordas]. Segundo ele, essas “dualidades mostram que os modelos são todos essencialmente equivalentes, ou seja, são aspectos diferentes da mesma teoria básica, que recebeu o nome de teoria-M” (O Universo numa casca de noz, p.57). Com essa convergência das cinco teorias das cordas para a rede de conexões matemáticas (denominada teoria-M), o entusiasmo do astrofísico em torno da descoberta da “teoria unificada” permaneceu em alta até 2004, quando Hawking, durante uma preleção na Universidade de Cambridge, parece ter anunciado pela primeira vez sua desistência em procurá-la (www.damtp.cam.ac.uk/strtst/dirac/hawking).

É interessante pensar que enquanto escrevia este texto, estive em uma livraria e adquiri a edição deste mês da revista Scientific American Brasil, cujo assunto de capa é Stephen Hawking e a impossibilidade de uma teoria do Tudo ― Equação capaz de traduzir a Natureza talvez nunca se concretize. Trata-se de um ensaio assinado por Hawking e Mlodinow e está baseado no novo livro da dupla (The grand design), mencionado no início deste texto quando falei sobre o artigo de Marcelo Gleiser. O título do artigo dos cientistas é A (Esquiva) Teoria do Tudo. Nele, os autores afirmam terem se esforçado durante décadas “para chegar a uma teoria do tudo — um conjunto completo e consistente de leis fundamentais da Natureza que explique cada aspecto da realidade” (p.25). Entretanto, reconhecem que “parece que essa busca leva não a uma teoria única, mas a uma família de teorias interconectadas” sendo que “cada uma delas descreve a própria versão da realidade” (p.25). Apesar de em seu primeiro livro (Uma breve história do tempo), Hawking ter dito que a teoria das cordas foi originalmente inventada no final da década de 1960 (p.220), e de ter repetido a mesma informação na nova edição do livro (p.129) que, já foi escrita em conjunto com Mlodinow (que também assina o artigo com ele da revista Scientific American Brasil), ambos afirmam agora que ela foi “proposta pela primeira vez nos anos 1970 como tentativa de unificar todas as forças da Natureza em uma estrutura coerente e, em particular, de trazer a força da gravidade para o domínio da física quântica” (p.27).

No artigo (e possivelmente no livro), Hawking e Mlodinow explicam melhor o que é a teoria das cordas e o que Hawking chamou em O Universo numa casca de noz, de “dualidades” (p.57): “As teorias [as das cinco cordas e a da supergravidade] de fato estão relacionadas pelo que os físicos chamam de dualidades, uma espécie de dicionário matemático para traduzir conceitos para a frente e para trás. Lamentavelmente, no entanto, cada teoria é uma boa descrição de fenômenos apenas sob certa gama de condições — por exemplo, a baixas energias. Nenhuma delas consegue descrever cada aspecto do Universo” (p.27). Mas, o que mais chama atenção, é o que os autores deixam claro ao explicarem que “adeptos da teoria das cordas agora estão convencidos de que as cinco teorias são apenas diferentes aproximações a uma teoria mais fundamental chamada Teoria M. (Parece que ninguém sabe ao certo o que significa M. Pode ser ‘mestre’, ‘milagre’ ou ‘ministério’ — ou os três juntos.) As pessoas ainda tentam decifrar a natureza da Teoria M, mas parece que a expectativa tradicional de uma teoria da Natureza talvez seja insustentável — e para descrever o Universo talvez precisemos empregar diferentes teorias em diferentes situações” (p.27).

O grande problema de se encontrar a “teoria unificada” é que todas as demais teorias, para se unir em uma “rede de conexões matemáticas”, precisam sofrer “ajustes”. O que isto significa? Os valores são arbitrariamente ajustados para se adequar aos experimentos. Em outras palavras, é uma teoria que fora do papel não corresponde à realidade, não oferece uma descrição exequível do universo. Em Uma nova história do tempo os próprios autores oferecem alguns exemplos para ilustrar o ponto (pp.121,127-28). E onde é que entra a questão de Deus em toda essa discussão? Para responder a lacunas, Hawking aventava algumas ideias que poderiam servir de acessório para o seu intento. Na realidade, tudo não passava de conveniência utilitarista e pragmatismo. No programa de TV norte-americano, Larry King Live, Stephen Hawking afirmou que a “ciência tem cada vez mais respondido questões que antes eram do campo da religião. A explicação científica é completa. A teologia é desnecessária”. Mas como é que Hawking migrou de sua visão simpática à “hipótese teológica”, para outra postura em que “Deus não seria mais necessário”? Em sua obra O princípio de todas as coisas, o pensador suíço Hans Küng, arrisca uma resposta: “Era esta uma ideia bastante presunçosa e irônica. Pois a opinião de Hawking era que com uma tal Theory of Everything = TOE, uma teoria unificada para todas as coisas, o mundo se explicaria por si mesmo, e Deus deixaria de ser necessário como criador. Se o universo fosse inteiramente fechado em si mesmo, sem singularidades nem limites, se ele fosse descrito completamente por uma teoria unificada, então a física teria feito com que Deus se tornasse supérfluo. Entretanto era mais fácil encontrar uma abreviação marcante, como GUT (em alemão: gut = bom!) ou TOE, do que a própria teoria para unificar todas as forças físicas” (p.33).

Sobre a expressão “mente de Deus” utilizada por Hawking, Hans Küng acha que “mente” ou “plano” não traduz perfeitamente a pretensão do astrofísico, por isso o pensador suíço prefere a expressão “espírito de Deus”. Sobre a empreitada do astrofísico, Küng diz que “quando um matemático ou físico se propõe a ‘conhecer o espírito de Deus’, ele teria que ocupar-se com as questões filosófico-teológicas com a mesma seriedade que com as questões físicas” (p.40). O grande problema é que como questionei no texto A humanidade e o fenômeno religioso, estudiosos querem pesquisar objetos diferentes usando os mesmos métodos e ferramentas utilizados em outras áreas. A esse respeito Hans Küng questiona: “Não será tempo de Hawking e os demais cientistas que pensam como ele analisarem não apenas as especulações fantasiosas e certas concepções empíricas, mas também as bases positivas de seu pensamento científico, originárias do século 19?” (p.44). Bem, parece que Hawking desistiu de procurar a “Teoria do Tudo”. Será que isso significa que ele também desistirá de conhecer a “mente de Deus”?

Demonstrando surpresa com os pronunciamentos do astrofísico, Marcelo Gleiser sintetizou sua, digamos, “preocupação”, com as afirmações de Hawking com a seguinte colocação: “Como nos mostra a história da ciência, surpresas ocorrem a toda hora. Talvez esteja na hora de Hawking deixar Deus em paz”. A conclusão de Gleiser se dá justamente pela declaração de Hawking “de que a física resolveu a questão da origem do Universo e que, portanto, Deus não é necessário”. Na opinião do cientista brasileiro, “isso não passa de mais uma batalha numa guerra um tanto longa e inútil”. O que se deduz da afirmação de Gleiser, é algo ambíguo, porém, não menos importante por isso. Apesar de ateu, ele não defende uma rivalidade entre ciência e religião e, pelo aspecto da física propriamente dita, lamenta “que físicos como Hawking estejam divulgando teorias especulativas como quase concluídas”. Em sua mais nova obra, Criação imperfeita, lançada em março último, o cientista brasileiro afirma categoricamente:

“Durante os vários anos que trabalhei em unificação, lutei muito contra o sentimento de impotência que sentimos quando encaramos a possibilidade de que nem tudo é compreensível pela mente humana. Porém, acredito que chega um momento em que temos que aprender a aceitar nossas limitações, conforme fizemos com a mecânica quântica. Do mesmo modo que a indeterminação quântica limita a nossa compreensão do mundo dos átomos e das partículas subatômicas, o nosso conhecimento limitado da realidade proíbe a construção de uma Teoria Final. Mesmo a noção de que essa teoria possa existir é absurda, pois implicitamente supõe que nos é possível conhecer tudo que existe e que, com esse conhecimento, poderemos construir uma teoria da unificação. Mas unificar o quê? Como jamais teremos um conhecimento completo da realidade física, sempre existirá um elemento de incerteza no nosso conhecimento da Natureza, além de onde podemos ‘enxergar’. Vivemos envoltos numa escuridão perene. Não existe unificação final a ser obtida, apenas modelos que descrevem, de forma gradualmente mais precisa, o que podemos medir do mundo. Ao aprimorarmos os nossos instrumentos e, com eles, aprendermos mais sobre o mundo, aumentamos também a nossa ignorância: quanto mais longe enxergarmos, mais existe para enxergar. Consequentemente, é impossível contemplar um momento no futuro quando conheceremos tudo o que existe para ser conhecido. A incerteza do conhecimento é tão permanente quanto a incerteza do mundo quântico. Mesmo que isso seja difícil de ser aceito, esta incerteza representa uma limitação fundamental do conhecimento humano. Apenas a nossa vaidade intelectual nos impede de aceitar esse fato e seguir adiante. O brilho da ciência, a sua mágica, não diminuirá se uma Teoria Final não existir” (pp.146-47).

No artigo publicado em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Gleiser, diz que as “teorias que Hawking e Mlodinow usam para basear seus argumentos ― teorias-M, vindas das supercordas ― têm tanta evidência empírica quanto Deus”. Algo que fica mais claro quando se lê o texto Idea of the Day, de Tom Kuntz no blog do jornal New York Times. O blogueiro estadunidense fez uma pequena comparação entre as afirmações dos dois físicos que, como já deu para perceber, divergem significativamente. A parte que chama a atenção é quando Kuntz diz que a “busca por uma teoria abrangente da natureza inspirada pela beleza e perfeição é equivocada, enraizada na cultura monoteísta que durante tanto tempo dominou o pensamento ocidental”. A obra de Gleiser, Criação imperfeita, expõe exatamente essa preocupação em desmistificar a ideia de que seja possível explicar a realidade definitivamente. Tal pretensão é denominada pelo físico brasileiro de “ciência monoteísta”. Para ele, “a crença numa teoria física que propõe uma unificação do mundo material — um código oculto da Natureza — é a versão científica da crença religiosa na unidade de todas as coisas” (p.13). Uma vez que ele qualifica a “unificação da física” como crença, percebe-se que a verdadeira questão em jogo não é se isso é ou não possível, mas a direção que tal busca tem tomado.

Quanto à ampla divulgação midiática acerca das polêmicas afirmações de Hawking, Marcelo Gleiser afirma: “A euforia na mídia é compreensível: o homem quer ser Deus”. Algo recorrente que não é nem um pouquinho novo no drama humano. Na realidade, não se trata do fato de que os cientistas e, por assim dizer, todos os homens “voltaram” a querer ser Deus, pois na realidade eles nunca desistirão de querer ser o Eterno. Eu só espero que ambos sejam honestos para tomar a mesma atitude que Hawking diz ter tomado quando se equivocou acerca de seus arrazoados sobre a física: “O que se faz quando se percebe que se cometeu um erro […]? Algumas pessoas jamais admitem que erraram e continuam a buscar novos, e cada vez mais inconsistentes, argumentos para sustentar sua opinião, como Eddington, ao se opor à teoria do buraco negro. Outras afirmam que nunca sustentaram a opinião errada anteriormente, ou se o fizeram foi apenas para demonstrar sua inconsistência. Parece-me muito melhor e menos confuso que se admita publicamente o erro. Um bom exemplo desta atitude foi dado por Einstein, que chamou a constante cosmológica, que introduziu ao tentar esboçar um modelo estático do universo, de o maior erro de sua vida” (Uma breve história do tempo, p.209).

Não sei como os estudos e pesquisas de Hawking, Mlodinow e Gleiser terminarão (se eles realmente forem honestos dá para imaginar…), não obstante, a “vala comum” em que todos eles “cairão” — seja com a defesa da simetria do universo pelos primeiros e da assimetria pelo último —, é justamente a mesma que muitos outros antes deles caíram: Não é possível explicar toda a realidade, pois tanto na ciência quanto na religião, muitos postulados dependem da crença e da fé. Em um dado momento (parece que ele até já chegou para alguns), a única opção que restará é a crença naquilo que cada um, a priori, já decidiu aceitar como verdade. Essa postura definirá se o homem crê em algo que o transcende, mas com o qual é possível ter contato, ou prefere acreditar em si mesmo e faz de sua pessoa o seu deus. Hawking, por exemplo, acredita em vida extraterrestre. Como já disse o velho Chesterton, quando se deixa de crer em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa. Até mesmo que somos deus.

Publicado originalmente em:
24/11/2010 10:56 CPADNews

rev. Jucelino Souza
http://twitter.com/jucelinosouza
jucelinofs@yahoo.com.br

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